Ele pertence ao clube fechado dos vencedores multi-galardoados no Grand Slam. Para coincidir com o Open de Tênis francês deste ano, traçamos o perfil de Roger Federer, campeão de tênis tão discreto quanto elegante.

"Beauty in movement". His play is an unbroken succession of winning strokes
Existe o tênis em geral e depois o tênis de Roger Federer. Não é exatamente a mesma coisa nem o mesmo esporte. A maioria dos jogadores têm por objetivo destruir os seus adversários. Federer funciona de forma mais subjetiva, não quer matar ninguém. Ao contrário, Ele se diverte animando o tempo de troca entre jogadores. Creio que é em Wimbledon que eu prefiro ver o nosso homem, que tem a elegância de uma outra época. Gosto de o ver chegar no estádio inglês. A sua lentidão. O seu sorriso. A sua forma ser e estar tranquilamente radiante no relvado verde onde sobressai a sua camisa imaculada branca. A gestualidade do início e a sua beleza. Tudo está lá, nessa expressão : " A beleza do gesto ". Gesto inútil porém incontornável. " A beleza do gesto ", cristalino e perfeito. O seu modo de jogar revela ser uma sequência ininterrupta de gestos perfeitos.
Like an inspired star dancer
Mesmo sobre a terra ocre de Roland-Garros, quando os camionistas da Porte d'Auteuil se fazem ouvir nas quadras de tênis, Federer não perde a elegância. Gosto do seu estilo descontraído, despreocupado. É o único sentimento que pode inspirar a nossa vida e que não há argumentos para defender. A gestualidade de Federer parece a de um primeiro bailarino. Por estranho que pareça, há nessa descontração algo do menino travesso que ele foi. Este suíço foi um adolescente difícil de controlar nas quadras de tênis. Pintava o cabelo de louro oxigenado e mandava para o espaço os seus torneios. E depois, gradualmente, foi adquirindo toda essa graça. É preciso muito trabalho para que o seu gesto pareça natural. Com muito trabalho, este homem tornou-se o oposto de um homem laborioso. O que é um voleio de Federer, senão um instante que se destaca do passado, do presente, uma sequência previsível para dar charme à perfeição.

Como um Mozart contemporâneo, há músicalidade no jogo de Federer. O homem compõe cada um dos seus pontos. Ele tem rasgos líricos como uma pequena serenata noturna. Desde o smash ao amortecimento da bola. Ele não força a falta. Ele desenha o seu backhand. É um aristocrata. Nunca grita no momento de rebater a bola. Seria uma demonstração de mau gosto. A pior de todas. Roger sabe se conter. O que não o impede de dar tudo por tudo, lutar para vencer, sem nunca no entanto jogar pelo seguro. Ele é simplesmente incapaz de ficar na linha de fundo da quadra, de reduzir a arte do tênis a um simples desafio físico. Certamente nunca o admitirá. É demasiado bem educado para isso. Mas Roger acha a palavra " poder " um nadinha vulgar. O Fitzgerald da raquete não é um ser quantitativo. É um fogo de palha que perdura. Cada vitória contra Nadal é um milagre elegante. Num artigo no New York Times, o grande David Foster Wallace evoca este homem do tênis da seguinte forma: " Há vários tipos de explicação para a beleza de Federer. Uma delas implica mistério, metafísica e é, creio, uma que se aproxima mais da verdade. Esta explicação metafísica sugere que Roger Federer é um daqueles atletas muito raros "sobrenaturais", que parecem escapar a certas leis da física. Como Michael Jordan, que permanecia no ar mais tempo do que a gravidade podia permitir, ou como Muhammad Ali, que flutuava mesmo sobre o ringue e conseguia colocar dois a três ganchos quando os outros davam apenas um. Podemos citar uma meia dúzia de exemplos desde 1960. E Federer é um deles - um ser que alguns chamam de gênio, ou de mutante, ou extra-terrestre. Nunca parece apressado ou desequilibrado. A bola se aproxima dele com um tempo de retardamento. Os seus movimentos são tão elegantes quanto atléticos. Como Ali, Jordan, Maradona ou Gretzky, a sua substância é diferente da dos atletas que enfrenta. Federer aparece como ele é "pelo menos é o que acredito : uma criatura cujo corpo é simultaneamente matéria e luz. "
The variety of his game is where all the pleasure lies
Voltemos ao planeta terra. Deu apesar disso provas do seu talento. Primeiro, o atleta nunca abandonou um torneio no circuito profissional. Uma questão de saber viver. A coreografia agora. O jogo de Federer nunca é repetitivo. Ele procura sempre um lugar fresco no travesseiro. O seu rosto de hoje. Ele nunca carrega a máscara do sofrimento. Não gosta de se expor. Razão pela qual gostamos de assistir a uma das suas vitórias. Com Federer, ganhar nunca é um fim em si. Decorre muito naturalmente de toda uma aventura estética. Depois de um concerto de Mozart, o músico continua presente. Depois, quando dá uma entrevista, fala suavemente. Nunca esquece de felicitar o seu adversário. Mesmo depois de cinco sets, temos a impressão que acaba de sair do chuveiro. Impecável. Elegante. Um tom acima dos outros. Vá se lá saber porquê.

Federer appears exempt, at least in part, from certain physical laws
Texto : Timothée Barrière
Fotos : Olivier Roux
Biografia : Federer o Grande
Abrir a biografia de Roger Federer, é como folhear um livro de recordes. Dezesseis vitórias no Grand Slam desde o seu primeiro título em 2003. Da grama de Wimbledon, seu jardim predileto, à terra ocre de Roland-Garros, domada em 2009, nenhum dos principais troféus escaparam ao suíço. Acrescente-se seis Masters ganhos enfrentando os melhores jogadores do mundo, a medalha de ouro olímpica em 2008, mais de cinco anos à cabeça da classificação mundial desde 2004, e você tem o perfil do maior jogador de tênis dos anos 2000. Nascido em Bâle, de origem sul-africana por parte de mãe, ele não parecia no entanto destinado ao tênis. Criança, sonhava em ser jogador de futebol. Entre a estética e a polivalência, o seu estilo descontraído parecia talhado para esse esporte. A disciplina trouxe-lhe, aliás, mais do que a glória. É nas quadras que encontra Mirka Vavrinec, que será simultaneamente sua mulher, a mãe das suas filhas gêmeas e a que gerencia a sua carreira. Diga-se de passagem que, entre as suas obras caritativas, para a sua fundação ou para a Unicef, e os seus múltiplos contratos publicitários - com 32 milhões de euros anuais, sendo um dos atletas mais bem pagos do mundo - a sua agenda está mais do que preenchida. Porém, se com quase 31 anos, alguns asseguram que o melhor da sua carreira já se encontra no passado, assim como a sua rivalidade esportiva com o espanhol Nadal, a verdade é que o campeão ainda tem muitos sucessos pela frente.

Em junho de 2009, o suíço ganha o torneio Roland-Garros, a única das grandes competições que faltava na sua coleção de troféus.
Texto : Cyril Pocréaux
Crédito fotografia : © B. Martin/Sports Illustrated Getty Images